A obra Fragmento conquistou o primeiro lugar na categoria Melhor Livro LGBTQIAPN+.
A jornalista e escritora Andressa Aricieri, ex-aluna do curso de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (Unisanta), foi reconhecida no Prêmio Ecos da Literatura, premiação voltada para a literatura independente, nacional e contemporânea, com o livro Fragmento, de sua autoria.
A obra, de 263 páginas, conquistou o primeiro lugar na categoria Melhor Livro LGBTQIAPN+, disputando com outras duas produções. Andressa relembra o momento em que seu livro foi anunciado como o vencedor, em um evento que reuniu autores e profissionais do setor, e confessa que a ficha demorou para cair.
“Eu tremia bastante e foi um choque tão grande que nem consegui chorar de emoção na hora, só depois que a adrenalina já tinha passado. Enquanto eu ia até o palco, eu pensei que, quando publiquei o livro, estava com muito medo de o pessoal odiar. E, se eu tinha chegado até ali, então o medo havia sido superado”, conta a autora, que já tinha um discurso preparado, pois todos os finalistas poderiam falar no palco.
Fragmento é um livro sáfico – focado em relações amorosas e afetivas entre mulheres – que conta a história de Kamilah, mãe de uma menina diagnosticada com um tumor cerebral, e Giulia, a chefe da neurocirurgia do hospital em que a criança recebe atendimento. A partir deste encontro, surge uma conexão entre as duas.
Por se tratar de um livro com a temática LGBTQIAPN+, a publicação representou um ato de entrega pessoal e coragem. Diante de um cenário atual que ela mesma descreve como marcado pelo ódio e pela intolerância, o medo da exposição foi inevitável. No entanto, o desejo de contar uma história que ela própria sentia falta de ver nas prateleiras falou mais alto.
“Por mais que eu tivesse receio de a história não ser bem aceita porque não é muito feliz, eu sabia o risco que eu corria, mas a recepção pública foi muito melhor do que eu esperava e me deu forças para continuar insistindo em Fragmento, fazendo-a tocar no coração de tantas pessoas”, ressalta.
Durante o processo de escrita, Andressa buscou referências literárias – e de vida – que a ajudaram a construir a narrativa. Desde os poemas de Clarice Lispector, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes até momentos afetivos com sua avó e sua mãe.
“Eu cresci lendo poemas de Clarice, Cecília, Drummond e Vinícius, mas porque minha avó me introduziu a isso. Ela tinha um livro não publicado de sonhos e ela me deu esse livro encadernado. Além dela, muitos amigos meus me incentivavam a publicar algo relacionado às minhas poesias. Quando publiquei meu primeiro livro de poesias, minha mãe pareceu que tinha ganhado na loteria de tão feliz que ficou”, recorda com carinho.
Andressa explica que todas as personagens de Fragmento são inspiradas em pessoas reais, tendo suas características misturadas com as da própria autora e de terceiros. “Consigo ver minha avó, minha mãe, meus amigos, minha madrinha e também o relacionamento que eu ainda não tinha, mas hoje consigo ver que há muita coisa minha e da minha esposa”, explica.
Além disso, a autora utiliza muito de sua vivência jornalística para o desenvolvimento da narrativa, especialmente quando observa os arredores e realiza pesquisas para basear ambientes, comportamentos e escolhas literárias.
Segundo ela, as histórias surgem em sua cabeça e ela apenas coloca em uma folha de papel o enredo pronto. “A observação de mundo nunca termina, porque até a palavra “Fim” ser colocada na obra, todo o restante vem das minhas observações, seja de como as pessoas se comportam, seja dos arredores, ou uma loja bonitinha que eu encontrei”, revela.
Contudo, além da inspiração cotidiana, a escritora detalha que o processo exige técnica. “Outra coisa que faço muito é pesquisar, e isso também é um trabalho jornalístico, afinal, precisamos passar a informação correta. Por mais que a licença poética tome um lugar maior em boa parte do livro, as partes reais existem e são sempre embasadas”, pontua a ex-aluna.
Do jornalismo na Unisanta à literatura
Formada em 2018 pela Unisanta, Andressa não conseguia imaginar que um dia receberia um prêmio de prestígio por uma obra literária de sua autoria. Afinal, a sua real intenção, ao ingressar no curso, era ser repórter do The New York Times, um dos jornais mais influentes do mundo.
Mas com o passar dos semestres, ela descobriu os diversos ramos de atuação da comunicação, e a literatura apareceu aos poucos, entre as linhas dos trabalhos acadêmicos. Nesse tempo, ela e sua melhor amiga, parceria nascida nas salas de aulas da instituição, brincavam que um dia lançariam um livro juntas.
“A visualização de carreira veio só em 2020, no meio da pandemia, quando eu comecei a escrever fanfics para passar o tempo e muita gente começou a me incentivar para publicar algo de verdade. Ainda demorei um tempo processando a informação e foi apenas em 2023 que publiquei minha primeira miniantologia de contos de terror na Amazon”, diz.
Durante os anos de graduação na Unisanta, Andressa relembra que os docentes apoiaram seu talento e mostraram que seu potencial poderia levá-la em direção à literatura. Cada um teve uma influência, fazendo-a perceber o formato diferenciado de suas produções.
“O professor Robson, que gostava muito das redações e eu gostava de escrevê-las; o professor Gerson, que me dava notas mais altas quando eu precisava escrever soft news (e isso foi uma virada de chave grande na minha vida ao perceber que eu me saía melhor em histórias não factuais); e os professores Helder, Nara e Raquel, quando falavam dos textos da Revista Viral”, relembra.
Os novos capítulos da autora
Com Fragmento consagrado no Prêmio Ecos da Literatura e o lançamento de Reconstrução, a sequência da duologia do universo de “Esperança” e dois contos spin-off, a autora confirma que a jornada dessas personagens está encerrada. No entanto, o fim desse ciclo abre espaço para novas e necessárias narrativas, garantindo que a representatividade continue em suas próximas páginas.
“Eu lancei neste ano uma noveleta na Amazon que conta três partes da história de um mesmo casal (aos 25, aos 45 e aos 65 anos) e, para o ano que vem, já tenho mais um romance iniciado, esse mais focado em ser uma comédia romântica”, finaliza a escritora.