Especial Queimadas 3 -“Os números falam por si próprios”, afirma a profa. Mara Magenta, do Mestrado em Auditoria Ambiental

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Mara Angelina Galvão Magenta, docente da disciplina de Recuperação e Restauração Ambiental, do Mestrado em Auditoria Ambiental da Unisanta, também somou fatos e observações relevantes sobre a questão das queimadas nos três biomas brasileiros mais atingidos (Amazônia, Pantanal e Cerrado).

A começar pelo Cerrado, a pesquisadora santista especialista em Botânica, destacou que nas áreas do bioma, por ocorrerem em regiões com longos períodos sem chuva (como o Planalto Central brasileiro, onde a umidade relativa do ar pode ficar entre 15% e 30% entre os meses de julho e agosto), as queimadas são uma realidade recorrente nesta época. “Suas plantas evoluíram para sobreviver ao fogo: as árvores conseguem se recuperar rapidamente, pois a casca grossa protege o sistema condutor de seiva; as ervas e os arbustos geralmente possuem um sistema subterrâneo espessado que reserva nutrientes, permitindo que rebrotem em condições favoráveis”, pontuou Mara.

Quanto ao Pantanal, formado por um “mosaico vegetacional, que inclui Floresta Amazônica, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Chaco, distribuídos de acordo com as diferenças de solo e altitude”, a docente destacou que, além da ação humana, a forte queda da umidade do ar na época de seca, aliada à alta inflamabilidade do material decomposto após a época de inundação adas planícies, e que se agrega ao solo de no inverno, é outro fator de favorecimento para as queimadas: “Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) afirmam que grandes alagamentos, como os ocorridos em 2019, resultam em maior formação de material orgânico inflamável e, de certa forma, o aumento no número de queimadas poderia ser esperado em 2020”, afirmou Mara, sobre a previsibilidade dos acontecimentos que tomaram conta dos noticiários em setembro.

Além disso, a pesquisadora ressaltou: “O Pantanal está passando pela maior seca de sua história, com média de pluviosidade 40% menor para o período em relação aos anos anteriores. O rio Paraguai, principal rio formador de suas áreas alagáveis, está apresentando o menor nível dos últimos 47 anos, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o que resulta em baixa inundação da planície. A diminuição da umidade relativa do ar chegou a perigosos índices abaixo de 20%. Segundo meteorologistas, isso pode estar relacionado ao fenômeno La Niña, esperado para este ano, que poderá causar atraso no período chuvas aumentando ainda mais a possibilidade de queimadas”.

Sobre o maior bioma brasileiro em extensão, a profa. Mara Magenta iniciou sua análise citando a umidade relativa do ar na Amazônia, em média de 77%, algo que, segundo ela, já refuta ou diminui a possibilidade de queimadas naturais na vegetação a níveis mínimos. De acordo com a docente, nesse bioma, as queimadas representam um risco sem mecanismos evolutivos de defesa por parte das plantas: “Devido ao longo histórico de alta umidade relativa, suas plantas não desenvolveram estruturas protetoras contra o fogo e, em caso de incêndio, seu o sistema condutor é atingido rapidamente, levando-as à morte. Mesmo que uma ocorrência de incêndio atinja apenas o sub-bosque, já que a umidade da floresta acaba por extinguir o fogo, isso pode alterar seriamente os processos de regeneração e, por consequência, toda a sucessão ecológica”, explicou especialista.

Mara também ilustrou o seu raciocínio com dados numéricos concisos e reveladores. “Os números falam por si próprios. Dos focos de incêndio registrados este ano até o momento pelo Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (INPE), 48,7% ocorreram na Amazônia, 28,8% no Cerrado e 10,9% no Pantanal. Assim, a Amazônia ainda é a área mais afetada pelo fogo em 2020, com aumento de 12% no número de focos em seu domínio até o dia 21 de setembro deste ano, em relação à mesma data do ano passado, enquanto no Pantanal esses valores chegaram a 185%.”, frisou a professora, que também citou fontes do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que atestam que grande parte dos focos de incêndio no bioma ocorre em municípios com áreas desmatadas para atividades agropecuárias, inclusive de gigantes do setor.

Além disso, a pesquisadora também relacionou a degradação da Amazônia com a questão da água, recurso indispensável para a vida e combustível de boa parte do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro: “A Bacia Amazônica é uma grande exportadora de chuva para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, além de países como a Argentina, Bolívia, Uruguai e Paraguai, por meio dos chamados ‘rios voadores’, que são cursos de ar carregados de vapor, formados pela evapotranspiração das grandes árvores. O Pantanal também é beneficiado por esses ‘rios’. Esse fenômeno pode ser seriamente afetado pela devastação da floresta amazônica, alterando o clima de várias regiões”, enfatizou Mara.

Mara Magenta também citou a situação dos outros biomas nesta época do ano, tema pouco abordado pelos grandes veículos brasileiros. “Não se destaca, por exemplo, que ouve aumento de 35% de aumento no número de pontos de incêndio nos Pampas e muito menos que houve redução de queimadas nos demais domínios fitogeográficos”, pontuou a docente da Unisanta.

A professora do Mestrado em Auditoria Ambiental apontou o fracasso da aplicação de políticas ambientais bem-sucedidas em uma parcela considerável dos países: “O relatório do Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), lançado no último dia 15, informa que as chamadas metas de Aichi, de ações para reduzir a perda da biodiversidade, estabelecidas durante a 10ª Conferência das Partes na Convenção da Diversidade Biológica , em 2010 (COP10), não foram totalmente alcançadas por nenhum dos países signatários desse acordo internacional”. As metas desse encontro, realizado na cidade japonesa de Nagoya, em 2010 envolveu 193 países, incluindo o Brasil, e deveriam ser alcançadas entre 2011 e 2020.

Por fim, Mara Magenta citou a educação como uma das principais ações da complexa e problemática situação ambiental que o Brasil enfrenta: “Campanhas educacionais de conscientização sobre as possíveis consequências deletérias do uso do fogo e divulgação de estratégias preventivas, como abertura e limpeza de aceiros, utilização de meios de limpeza que não o fogo e criação de grupos de proprietários vizinhos para alertar os demais e o próprio poder público sobre possíveis inícios de incêndio, poderiam ser implantadas em larga escala”, concluiu a professora.

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Especial Queimadas 1 – “A maioria das queimadas são intencionais”, afirma Miguel Petrere, PhD e docente da Unisanta

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