Animação sem violência destinada ao público infanto-juvenil. Os curtas-metragens animados do ex-aluno de Artes Plásticas da Universidade Santa Cecília (Unisanta), Victor-Hugo Borges mostram que limites são bem-vindos e que a junção do real com o imaginário, com uma visão contemporânea, pode ser bem recebida por todas as idades.

Victor-Hugo cursou Bacharelado em Artes entre os anos de 97 e 99. O gosto pela animação veio de muito cedo, antes de entrar na faculdade. Ele gostava de filmar e ‘’brincar de fazer animação’’. Seu TCC foi um filme de animação chamado Klaustro. O trabalho, uma história sobre criatividade, a vontade de sair do conforto, tentar outros caminhos. Foi premiado no ano de 2002 em dois festivais: Festival Universitário do Chile e Festival Guarnicê.

Em 2003, participou do Curta-Santos, conheceu o produtor Paulo Boccato, que o convidou para ir à São Paulo. O resultado da parceria foi a fundação da Glaz Cinema. Ele é sócio da produtora e diretor criativo. O patrocínio e a mudança para São Paulo ajudaram na repercussão de seus trabalhos.

O primeiro a ser patrocinado foi Historietas Assombradas (2005), que fala sobre o universo do folclore brasileiro, mas com uma visão realista, menos violenta. Foram escolhidos três personagens do folclore: Boitatá (cobra de olhos flamejantes, que comia os olhos dos outros animais e foi morto por um porquinho que jogou água em seus olhos e se tornou ‘’os olhos de seu pai, que ficou cego’’), Corpo-Seco, menino chamado Ananias, terrível, gostava de fazer maldades. Um dia o coração de Ananias foi embora. Ele virou um Zumbi, ficou solitário, mas um dia seu coração voltou e ele ficou um morto-vivo. Esse personagem é mais conhecido na região Sul, e o Jurupari, um caboclo deformado que toda vez que alguém assovia depois do pôr-do-sol, ele aparece, joga um pó mágico e faz a pessoa dormir.

O enredo dessa história foi insiprada em uma situação real: Avó contava histórias assustadoras para a sua neta antes de dormir. A menina não queria dormir de jeito algum, mas a avó assoviou, o Jurupari apareceu e jogou o pó mágico para a menina dormir.

‘’Esse trabalho foi uma espécie de provocação aos programas infantis, mas dentro do limite do que se pode aparecer’’, ressalta Victor-Hugo. Além de ter sido aceito por crianças e adultos, obteve mais de 30 prêmios, entre nacionais e internacionais e serviu para alavancar o nome de Victor na carreira de animação.

As histórias foram escolhidas para que houvesse um começo, um meio e um fim para o curta-metragem, ou seja, a narrativa precisava ser coesa e de certa forma, livre, o que ajudou com a diversidade das histórias. Para a maneira de contar cada lenda, Victor-Hugo inspirou-se em Monteiro Lobato, pois as histórias verdadeiras são violentas. A dublagem foi feita por Miriam Muniz (avó) e Isabela Guasco (neta). O curta foi dedicado à Miriam Muniz, que faleceu antes do término do trabalho. Por mais que o trabalho esteja finalizado, muitos investidores aparecem pedindo para a exibição do filme.

Victor procura terceirizar o seu trabalho. ‘’Animação é muito volumosa, não pode ser feita por uma pessoa só’’, explica. Ele comenta que a dublagem tem que ser feita antes da animação, para depois fazer movimentos e expressões dos bonecos em cima da voz do ator.

Victor foi convidado para mostrar seu trabalho aos alunos de Artes Visuais. É a primeira vez que ele volta ao Santa Cecília depois de formado. ‘’Meu diploma ainda está aqui’’, brinca. Ele entrou na faculdade com 17 anos e diz que muitas coisas aconteceram, muitas mudanças de paradigmas ocorreram nos corredores da Unisanta.

Outro trabalho que o ex-aluno mostrou na palestra de abertura da Semana de Artes foi Ícarus (2007), que conta a história do pequeno Ícarus, que nunca consegue ver o seu pai, porque ele é muito ocupado, mas ele sabe que o pai esteve no quarto quando a cabeça do seu boneco de suas faces fica com a expressão de alegre. Um dia o pai de Ícarus morreu e o boneco continuou com a expressão triste. Numa noite, a cabeça do boneco foi virada para a expressão de alegria. Isso ocorria todos os dias, para a felicidade do menino, quando voava com seu pai. O tempo foi passando e ele foi crescendo, o boneco enferrujou e Ícarus ficou muito pesado para voar.

A idéia surgiu de uma conversa com de Victor com seu filho. ‘’Esse curta assumiu um tom mais objetivo, foi destinado aos adultos. É um filme infantil para adultos’’,diz. O filome rodou o mundo e teve uma aceitação muito boa. Foi exibido no Canadá, Estados Unidos, Espanha e foi dedicado à memória de Giafrancesco Guarnieri. Algumas imagens do filme podem ser vistas no site http://www.glazcinema.com.br/icarus.