“Enquanto não parar de chover, há risco”, diz Geotécnica, professora de Engenharia da Unisanta

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Os deslizamentos nos morros da Baixada Santista são os responsáveis por boa parte das mortes ocorridas durante as chuvas do começo desta semana. Para entender a dinâmica desses deslizamentos, o Santaportal conversou com Dirce Carregã Balzan, geotécnica com mestrado em Engenheira Civil e Doutorado em Planejamento Urbano, professora de Engenharia da Unisanta. Confira os principais trechos da entrevista:

Como é o solo dos morros da Baixada Santista?
Morros são formados por rochas e, ao longo do tempo, essas rochas vão sofrendo uma decomposição gradativa. O solo é na verdade uma camada de solo residual que foi formado a partir da decomposição dessa rocha, ele inclusive contém blocos de rocha. Acontece que esse solo tem uma resistência muito menor do que as rochas. A superfície de descontinuidade que existe entre a camada de solo, com blocos de rocha e detritos, e a rocha fresca geralmente é a superfície onde ocorrem os deslizamentos, tanto é que às vezes você pode ver uma laje de rochas remanescente depois que ocorre um deslizamento de terra, porque a rocha só vai sofrer movimentação se estiver solta, com falhas e fraturamentos. Esse solo é instável e pode existir também uma camada superficial muito porosa conhecida como solo coluvionar. Quando chove, vem tudo abaixo com a pressão da água, devido ao encharcamento. Pode ficar anos estável um talude nessas condições, mas num evento desses, em que o clima é radical, os acidentes acontecem.

Os moradores dos morros podem reocupar essa área que desbarrancou?
Essas áreas são definidas como áreas de risco, então a ocupação, quando ocorrer, tem que ter monitoramento através do Poder Público. Esses morros de Santos já foram todos mapeados pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas. Tem algumas áreas que não deveriam ser ocupadas, algumas áreas são passíveis de ocupação, porém com certos cuidados.

E quais são esses cuidados?
Obras de contenção, por exemplo. Obras de drenagem e impermeabilização, também. E ainda assim, quando existem esses eventos pluviométricos muito intensos, tem que ter cuidados extras. A Defesa Civil vai entrar e dizer se há necessidade ou não de ocorrer uma desocupação preventiva.

Quais as causas para terem acontecido os acidentes?
A decomposição da rocha é um fenômeno absolutamente natural que ocorre ao longo do tempo. Esse material vai sendo decomposto e a rocha vai se transformando em solo ao longo de milhões de anos. Esse processo é natural, mas muitas vezes uma ocupação mal planejada ou um evento climático podem acelerar esse movimento natural. O evento principal, nesse caso, foi a chuva que foi realmente muito intensa, num intervalo de tempo muito pequeno. Não deu tempo de dissipar a pressão da água.

Há mais risco aos moradores que moram na parte de cima do morro ou na parte de baixo?
Não há diferença. Os que moram em cima têm risco de desabamento e os que moram embaixo têm risco de atingimento. As duas situações são ruins e envolvem riscos.

Os moradores podem ficar tranquilos ou ainda há risco de deslizamento?
Por enquanto, se não parar de chover, essas áreas continuam sendo de risco, inclusive a estrada. Eu desço para dar aula, na Anchieta aconteceram vários deslizamentos. Enquanto não parar de chover, não dissipa a pressão da água. Se parar de chover, dá tempo de dissipar essa pressão. Então, enquanto continuar chovendo, vai haver risco.

Depois de desastres como esses que aconteceram na Baixada Santista, quanto tempo (em média) leva para o solo secar?
Se você não tiver chuva e as temperaturas subirem, isso é muito rápido. Se for um solo mais arenoso, vai secar rápido. Agora o problema é esse, tem a parcela de solos mais argilosos, que vão demorar mais, mas eles vão voltar à sua condição natural se tiver um clima seco por vários dias seguidos. Mas é preciso muita atenção, porque não necessariamente já voltou tudo às condições que estavam antes desse evento. Se a água infiltrou nas camadas mais inferiores, vai demorar mais. Às vezes, pode estar seco na superfície e embaixo ter um lençol freático. Parou a chuva, esse lençol freático vai baixando, mas ele pode estar ainda nas camadas mais inferiores, aí tem que fazer investigação. Na verdade não há como prever.