Lúcia Maria Teixeira Furlani

“Dê palavras à tristeza. O coração que não
fala não tem como se aquietar”
(Shakespeare)

Antes de ganhar de meu marido o leal cachorro dálmata Aramis, não havia tido convivência muito próxima com animais: tratava-os bem, porém sem grande intimidade, talvez até com certo medo.
O convívio de quatro anos e meio com o Aramis modificou em muito minha relação com os animais e com a própria vida.
Sua morte prematura nos deixa, além da saudade, algumas convicções que vão além da simples certeza de que o cão é o melhor amigo do homem.
É este o amigo que beija a mão dos donos que não têm nem alimento para lhes oferecer. O cão os acompanha na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, lambendo feridas e dores impostas pelo mundo.
Presenciei uma vez, à distância, cena que não esqueci, da janela de um restaurante onde me encontrava reunida com amigos. Um mendigo bêbado recolhia, em um saco que carregava, latinhas de bebidas, visando vendê-las em troca de alguns trocados. Porém se encontrava em tal estado de embriaguez, que caiu por diversas vezes na rua. Um cão o acompanhava e, mesmo sendo enxotado pelo alcoolizado dono, continuava a seu lado, buscando ajudá-lo a reerguer-se.
O auxílio a esse pobre viciado vinha apenas por parte do vira-lata. Enquanto isso, um dos donos de outro estabelecimento comercial gritava e ameaçava fisicamente o bêbado, de modo a que ele fosse embora para não espantar sua freguesia. Alguns transeuntes passavam pela cena, indiferentes a todo este sofrimento. Mais do que ameaças, o que o rapaz necessitava era ser encaminhado para um tratamento que lhe devolvesse uma vida digna, mas o único apoio que recebeu foi de seu humilde e faminto cão.
Temos inúmeros exemplos de como os animais se portam, em certas situações, com mais caráter, coragem e solidariedade do que os humanos, de quem se deveria esperar estas virtudes.
E de como, muitas vezes, são os humanos que transformam os animais em seres violentos, adestrando-os para o ataque, fornecendo-lhes maus-tratos, mantendo-os reclusos, sem alimento, higiene e carinho.
Mas são os animais outros irmãos criados por Deus que devem merecer o nosso amor, assim como todas as demais criaturas que povoam nosso mundo.
Devo dizer que o Aramis se foi, mas nos restou sua devoção, amizade, paciência, amor e compreensão.
Além de alguns móveis comidos e outras recordações como metade de uma bola, um bichinho de borracha sem apito, garrafas de plástico e suas respectivas tampas mastigadas e semi-destruídas, deixa a lembrança de seu nariz molhado, de seus meigos olhos e da cheirada de reconhecimento que dava em todos os parentes e amigos que nos visitavam (algumas vezes, em suas partes mais íntimas). Deixa também a alegria que representava para ele um simples caminhar, um afago, o prazer de sentir o vento na janela do carro ou de nos ver chegando em casa e, com isso, a oportunidade que também nos dava de nos sentirmos bem por pouca coisa.
Durante sua vida, fez jus ao seu nome, inspirado nos Três Mosqueteiros. Como eles, foi fiel ao extremo e valente até na morte, lutando e resistindo até o limite de suas forças.
Ele se foi, mas nos ficou o sentimento doce da solidariedade de muitas pessoas, que já sentiram ou avaliam a dor que representa perder um amigo tão querido, um “filho de pelo”.
Pessoas que têm a sensibilidade para entender que amar e cuidar de um animal não invalida o amor que se deve ter a outros seres humanos, que também precisam de nós, por viverem em condições ainda subumanas e desiguais. Pelo contrário, um afeto complementa o outro, já que o amor, dividido, compartilhado com todos os seres, não diminui, porém se multiplica.
Fica também a solidariedade de outros animais (isto mesmo, animais!), como o cachorro Astor, que pertence à minha irmã Sílvia, companheiro do Aramis em muitas brincadeiras. Astor, ao nos ver chegar em casa quando o Aramis partiu, nos acompanhou de cabeça baixa, muito triste, até a porta de nossa casa e ficou sem se alimentar durante dois dias.
A partida de um amigo de todas as horas também nos deixa a certeza de que não é possível estabelecer, com a felicidade, uma relação de posse. Não é certo dizer “temos felicidade” ou “somos donos de uma coisa chamada felicidade”, mas sim “estamos dentro dela”, conforme afirma Theodor Adorno, no livro “Minima Moralia”. Diz Adorno que quem é feliz nunca pode saber que o é. Para dar-se conta da felicidade seria necessário sair de dentro dela. Por aí deduzimos que só quem afirma “fui feliz” é fiel à felicidade. Nunca sabemos quando a temos. A felicidade fica na lembrança.
Neste sentido, fica-nos a certeza de que pudemos ser muito felizes tendo o Aramis ao nosso lado.
Se agora não contamos com sua presença, podemos nos sentir bem ao reconhecê-lo na Natureza e no cantar dos pássaros que pousam em nossa janela. Ele nos deixa uma convicção: a de que Deus nos fala através dos animais e de todas as formas de vida, embora muitas vezes os homens sejam incapazes de ouvir.
Já dizia Milan Kundera que as perguntas essenciais são feitas pelas crianças.
Meu filho Lucas, ao saber que o Aramis estava no céu, perguntou como ele foi para lá, se não possuía asas. Quando eu respondi que os anjos o haviam levado até lá, ele me fez outra pergunta: se poderia colocar uma escada até o Céu, para trazer o Aramis de volta.
Expliquei-lhe que o Céu era muito alto e a escada não o alcançaria, mas que o Aramis havia deixado aqui na Terra os sete filhotes que ele teve com a Ianka (fruto do primeiro cruzamento, tanto de um como do outro), e que nasceram nove dias antes dele morrer atropelado. Era mais um ato de amor por meio da qual ele deixava conosco um de seus filhos.
Com eles, fica ainda uma última lição: a de que o amor nunca exige, sempre dá.
Ao refletir sobre isso, pude perceber que meu filho tinha razão. Era, sim, possível erguermos uma escada tão alta que chegasse até o Céu.
É o amor esta escada imaginária que nos leva a todos os seres que amamos, estejam eles onde estiverem, na galáxia mais distante, na Terra, no Inferno ou até no Céu.

Lúcia Maria Teixeira Furlani é escritora,
Doutora em Psicologia da Educação e
Diretora-Presidente do ISESC, que
mantém a UNISANTA.