A obra é resultado de pesquisa realizada na Unisanta e analisa os fatores psicossociais no trabalho, defendendo a prevenção como pilar para empresas mais humanas.

O impacto do ambiente corporativo na saúde mental de profissionais originou o livro “Trabalho e Sofrimento Psíquico: O Advento da NR-1, entre o Direito à Saúde e o Adoecimento”. Escrito por Maria Cristina Pontes de Oliveira Alves, formada pelo Mestrado de Direito em Saúde da Universidade Santa Cecília (Unisanta), a obra apresenta, entre outros assuntos, as recentes mudanças da Norma Regulamentadora nº1 (NR-1).

Se antes a regra já estabelecia as diretrizes gerais sobre segurança e saúde no trabalho e o gerenciamento dos riscos ocupacionais, agora, passa a incluir os fatores de risco psicossociais relacionados às atividades laborais.

“Essa alteração é um avanço muito importante porque chama a atenção para condições presentes na própria organização do trabalho que podem afetar a saúde mental. Estamos falando, por exemplo, de sobrecarga, jornadas excessivas, assédio, pressão desmedida por resultados, falta de autonomia e outras situações capazes de contribuir para o sofrimento e o adoecimento do trabalhador”, aponta Maria Cristina.

Fruto de sua dissertação de mestrado, a ideia de transformar a pesquisa em um livro ganhou força em sua banca de defesa, quando os docentes recomendaram a publicação.

“Fui muito incentivada pela banca examinadora a publicar o trabalho, especialmente pela importância e atualidade do tema e pela profundidade com que ele havia sido desenvolvido ao longo da pesquisa”, conta.

Este reconhecimento ajudou Maria Cristina a entender que seu estudo poderia alcançar mais pessoas, para além do ambiente acadêmico. “A partir desse incentivo, decidi transformar a dissertação em livro, buscando ampliar o alcance do debate. O processo envolveu a revisão e a adaptação do trabalho para publicação, preservando a base científica da pesquisa, mas procurando tornar a leitura acessível também a quem não está no meio acadêmico”, explica.

Em mais de 130 páginas, a obra promove uma reflexão sobre a necessidade de ambientes mais humanos, em que as empresas precisam observar o que acontece no cotidiano, as cobranças de demandas, sobrecargas, jornadas adequadas, descanso fora do local de trabalho, as relações entre chefias e equipes e situações de assédio ou outras formas de violência no ambiente corporativo.

“Um dos pontos centrais do livro é justamente mostrar que o sofrimento psíquico não pode ser tratado apenas como uma questão individual do trabalhador. Muitas vezes, para compreender o adoecimento, é preciso olhar para as condições e para a organização do trabalho”, ressalta a profissional.

Maria Cristina afirma que a mudança da situação precisa ir além do cumprimento da norma, criando uma cultura de prevenção que inclua a saúde mental na própria organização do trabalho. “É nesse sentido que acredito que o livro pode contribuir: estimulando esse olhar preventivo e mostrando que ambientes de trabalho mais humanos também dependem da forma como o trabalho é organizado e gerido”, destaca.

Do mestrado na Unisanta para o mundo

O aprendizado no Programa de Pós-Graduação em Direito da Saúde na Unisanta teve um papel fundamental no desenvolvimento do livro, segundo Maria Cristina. Para ela, o mestrado ampliou sua compreensão sobre o direito à saúde. “Passei a estudá-lo não apenas sob a perspectiva jurídica e do tratamento da doença, mas também da prevenção e da necessidade de assegurar condições de vida e de trabalho que protejam a saúde”.

Outro aspecto do curso, relembrado pela mestra, foi a interdisciplinaridade do programa. “Quando falamos em saúde mental e trabalho, o Direito sozinho não consegue explicar toda a complexidade do problema. Foi necessário dialogar com outras áreas do conhecimento como a psicologia, assistência social, filosofia, entre outras, para compreender melhor como o trabalho pode produzir pertencimento, realização e identidade, mas também sofrimento e adoecimento”, observa.

Em agradecimento à instituição e aos docentes que participaram de sua jornada acadêmica, Maria Cristina ressalta a importância de sua passagem pela Unisanta.

“Foi fundamental a orientação da professora Rosa Maria Ferreiro Pinto, que me acompanhou durante todo o desenvolvimento da dissertação e teve papel muito importante nesse percurso acadêmico. À Universidade Santa Cecília, que foi essencial nessa trajetória, e aos professores do Programa de Pós-Graduação em Direito da Saúde, por todo o conhecimento compartilhado ao longo do mestrado. O livro também é resultado de tudo o que aprendi e vivenciei nesses anos de formação”, destaca.

A saúde mental e o trabalho, temas escolhidos para sua dissertação e, posteriormente, para o livro, são assuntos que acompanharam Maria Cristina durante seus dois anos de curso e estiveram presentes em diferentes análises desenvolvidas.  Esses estudos dialogam com a pesquisa desenvolvida no mestrado e com o tema central do livro, tendo sido apresentados em congressos no Brasil e no exterior e publicados em periódicos importantes.

“No CIDS 2025, Congresso Internacional de Direito da Saúde da Unisanta, apresentei o trabalho ‘Saúde Mental e Trabalho: o Direito à Saúde Mental do Trabalhador como Desafio das Políticas Sociais’, posteriormente publicado na Revista Brasileira de Direito Constitucional”.

Ela complementa: “E, em Portugal, tive a oportunidade de participar do Congresso Internacional Labour 2030, realizado na Alfândega do Porto, onde apresentei o artigo ‘Silêncio Institucional e Judicialização: a Saúde Mental do Trabalhador em Crise’, desenvolvido na disciplina Reflexões Contemporâneas sobre Justiça, em coautoria com o colega Giovano Eloy, e posteriormente publicado na Revista Tópicos”, expõe.

Questionada sobre quais serão seus próximos passos, Maria Cristina, além de focar em sua carreira acadêmica, está decidida a expandir ainda mais sua pesquisa e escrever sobre trabalho, saúde mental e direito à saúde.

“O livro representa a conclusão de uma etapa muito importante, mas não o encerramento da pesquisa. Meu próximo passo acadêmico é o doutorado, no qual pretendo aprofundar questões relacionadas à prevenção do adoecimento e à efetividade da proteção à saúde do trabalhador”, finaliza.