O estudo, destaque na categoria Profissional, mapeou a biodiversidade de São Thomé das Letras (MG) e identificou novas espécies de plantas na região.

O professor Dr. Paulo de Salles Penteado Sampaio, docente do curso de Ciências Biológicas da Universidade Santa Cecília (Unisanta), foi premiado na Categoria Profissional da IV Jornada Rio-São Paulo de Botânica. O evento ocorreu entre os dias 1º e 4 de julho, no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), reunindo pesquisadores, docentes e estudantes para debater a divulgação científica e o intercâmbio de conhecimentos na área.

“Foi uma emoção muito grande. Ter nosso trabalho entre os três melhores da categoria Profissional representa um importante reconhecimento da qualidade da pesquisa desenvolvida na Unisanta. Uma oportunidade muito especial para apresentar os resultados científicos e como a integração entre universidade, comunidade local e ciência cidadã pode produzir conhecimento de alta relevância”, ressalta Paulo.

A pesquisa, intitulada A flora de São Thomé das Letras (MG): riqueza, raridade e espécies ameaçadas em um hotspot de biodiversidade, destacou a combinação entre a grande riqueza de espécies, sendo algumas delas exclusivas, com a forte pressão ambiental da mineração de quartzito, da agropecuária e do turismo.

Ao longo de 12 anos, entre 2014 e 2025, o estudo foi realizado em uma área localizada na transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado, que também abriga campos rupestres. “Nosso levantamento registrou 1.347 espécies, distribuídas em 179 famílias botânicas, incluindo 444 espécies endêmicas do Brasil, 70 exclusivas de Minas Gerais, 44 espécies ameaçadas de extinção (das quais 30 constam na lista nacional oficial), além de sete espécies descritas como novas para a ciência a partir de coletas realizadas em São Thomé das Letras”, explica o docente.

A singularidade da flora local é evidenciada por plantas como a Vellozia tomeana e Mimosa thomista, batizadas em homenagem à cidade, além da Vriesea claudiana e Paepalanthus mellosilvae, espécies que não existem em nenhum outro lugar do mundo.

“Um dos momentos mais marcantes foi poder mostrar aos colegas da botânica da USP a fotografia da redescoberta de Paepalanthus mellosilvae, espécie reencontrada por nossa equipe após 26 anos em sua única localidade conhecida. A planta homenageia o saudoso professor Renato de Mello-Silva, um dos maiores botânicos brasileiros, muito querido por toda a comunidade científica presente no evento. Compartilhar essa redescoberta teve um significado científico e também profundamente afetivo”, salienta.

Para culminar no sucesso do estudo, foram realizadas dezenas de expedições de campo para verificar as diferentes formações vegetais do município, além de um amplo levantamento de herbários brasileiros, com a colaboração de mais de 130 especialistas e autoridades, que auxiliaram na identificação das espécies.

“O projeto contou com a participação direta de Erich Sattelmayer (Defesa Civil de São Thomé das Letras), Pedro Gabriel (Departamento de Meio Ambiente de São Thomé das Letras) e Valdeci Andrade (condutor turístico de São Thomé das Letras), além de inúmeros moradores, fotógrafos, guias locais e instituições parceiras. Foi um verdadeiro exemplo de Ciência Cidadã, em que diferentes setores da sociedade colaboraram na construção do conhecimento científico”, declara o docente.

A iniciativa também foi essencial para a formação de estudantes de graduação da Unisanta. Durante o projeto, diversos alunos colaboraram ativamente nas rotinas do Herbário, atuando na montagem e organização das coleções, na inserção dos registros em bancos de dados e na divulgação das informações em plataformas públicas, além de participarem do intercâmbio científico com outras instituições brasileiras.

Os resultados da pesquisa foram divulgados na 7ª edição da obra Flora de São Thomé das Letras, considerada o inventário florístico mais completo já realizado na região. Com acesso gratuito para democratizar a ciência, o livro serve como ferramenta de consulta para estudantes, pesquisadores e gestores, além de ter seus registros integrados ao Herbário da Unisanta e a bases públicas de dados.

Na prática, este mapeamento já apoia políticas de preservação local, identificando espécies raras e ameaçadas para subsidiar avaliações de risco do Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora) e o planejamento ambiental do município. O volume reúne conteúdos de 139 especialistas e 72 fotógrafos, compilando 1.670 imagens que cobrem 1.131 espécies — o equivalente a 73% de todos os registros botânicos locais feitos desde 1893 —, e pode ser baixado neste link.

Refletindo sobre os próximos passos e o impacto do projeto, Paulo destaca: “E o trabalho continua. A flora é dinâmica e novas descobertas ainda são possíveis. Acreditamos que esse estudo representa não um ponto final, mas uma base sólida para novas pesquisas e para o fortalecimento das estratégias de conservação da biodiversidade de São Thomé das Letras”, finaliza Paulo.

Participação da Unisanta

Além do docente, a Unisanta foi representada na IV Jornada Rio-São Paulo de Botânica por Zélia Rodrigues de Mello, coordenadora do Núcleo de Pesquisas Herbário (HUSC), e pelos alunos de graduação Ian Costa, Marjorie Leite, Pedro Bistene e Lindalis Oliva. Durante o evento, a comitiva participou de minicursos, palestras e mesas-redondas.

Os estudantes também apresentaram painéis científicos com resultados de pesquisas desenvolvidas na universidade:

  • Pedro Bistene exibiu o inventário de samambaias em áreas de vegetação nativa ao redor das instalações industriais em Cubatão (SP);
  • Já a aluna Lindalis Oliva, levou dados sobre a regeneração espontânea da vegetação de jundu na orla de Santos (SP): implicações para manejo, proteção e soluções baseadas na natureza.
  • A estudante Marjorie Leite expôs seu estudo sobre briófitas corticícolas em praias urbanas de São Vicente e Guarujá (SP).