Auxílio fortalecerá o AZUSC com nova infraestrutura científica, ampliação da coleção ictiológica e implantação de sistema inédito de imagens de alta definição.
A ciência desenvolvida na Universidade Santa Cecília (Unisanta) alcançou mais um importante marco com a aprovação, pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), de um projeto destinado à modernização e expansão do Acervo Zoológico da instituição (AZUSC).
A proposta foi contemplada na modalidade Equipamentos Multiusuários (EMU), uma das linhas de fomento mais competitivas da FAPESP, destinada à implantação de infraestruturas científicas de uso compartilhado e de elevado impacto para pesquisa. O projeto integra o grupo das 38 propostas aprovadas pela Fundação, sendo a Unisanta a única universidade particular contemplada.
O projeto, intitulado: “EMU: implantação e disponibilização de sistema de imagens osteológicas de alta definição para modernização e expansão da coleção ictiológica do Acervo Zoológico da Universidade Santa Cecília (AZUSC)” , receberá, somando os recursos destinados à infraestrutura e às bolsas vinculadas à proposta, um investimento superior a R$ 3 milhões. Mais do que a aquisição de equipamentos, a aprovação representa o reconhecimento da maturidade científica alcançada pelo AZUSC ao longo de mais de duas décadas de atividades contínuas em pesquisa, ensino, extensão e prestação de serviços à comunidade científica.
Durante os próximos quatro anos, o projeto permitirá ampliar significativamente a capacidade da “Coleção Científica Regional de Peixes da Costa da Mata Atlântica”, implantar novas tecnologias de documentação, fortalecer colaborações nacionais e internacionais e disponibilizar informações para pesquisadores, estudantes e gestores ambientais.
A proposta foi aprovada após avaliação por especialistas e pelo Painel de Avaliação da FAPESP, que destacou os méritos científicos e institucionais da iniciativa, bem como sua relevância para a preservação, organização e ampliação do acesso aos acervos científicos brasileiros, reconhecendo sua contribuição para o fortalecimento da pesquisa sobre biodiversidade e conservação da fauna no país.
O projeto é coordenado pelo curador do AZUSC, Prof. Dr. Matheus Marcos Rotundo, docente dos cursos de Ciências Biológicas (Bacharelado e Licenciatura) e dos Programas de Pós-Graduação em Sustentabilidade de Ecossistemas Costeiros e Marinhos (PPG-ECOMAR), Ciência e Tecnologia Ambiental (PPG-CTA) e Auditoria Ambiental, Portos e Governança (PPG-AUPG).
A equipe científica conta ainda com a participação da Prof.ª Dra. Milena Ramires, coordenadora do Laboratório de Ecologia Humana da Unisanta, e da pesquisadora de pós-doutorado Dra. Amanda Carminatto, além do corpo técnico do AZUSC, formada por analistas ambientais, docentes e estudantes de iniciação científica, graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado.
A proposta também reúne profissionais de diferentes setores da Unisanta, demonstrando o caráter multidisciplinar do projeto e a integração entre pesquisa, gestão institucional, tecnologia da informação, manutenção, comunicação e infraestrutura, como destaca o Prof. Rotundo: “Projetos dessa dimensão somente se tornam viáveis quando diferentes setores da universidade trabalham de forma integrada. Além da equipe do AZUSC, a proposta foi construída e será desenvolvida por vários departamentos da universidade, como a direção institucional, tecnologia de informação (TI), manutenção, segurança e diversos colaboradores que compreenderam a importância de fortalecer uma infraestrutura científica que atenderá pesquisadores por muitos anos.”
Muito além da aquisição de equipamentos
Embora o projeto contemple a aquisição de equipamentos científicos de última geração, seu principal objetivo é consolidar uma infraestrutura permanente para geração, preservação, compartilhamento e democratização do conhecimento.
Entre os itens aprovados estão um sistema de radiografia digital de alta definição, microscopia estereoscópica com documentação digital, equipamentos fotográficos profissionais, computadores de alto desempenho, sistemas móveis para gerenciamento e consulta de informações da coleção científica de peixes, além do desenvolvimento de uma plataforma digital integrada destinada ao armazenamento, gerenciamento e disponibilização pública das informações científicas do acervo.
O impacto esperado vai muito além da incorporação desses materiais. O projeto permitirá documentar digitalmente estruturas osteológicas de peixes utilizando técnicas não destrutivas, reduzindo o manuseio dos exemplares e preservando integralmente materiais científicos muitas vezes únicos ou insubstituíveis. As imagens produzidas poderão ser utilizadas em estudos taxonômicos, sistemáticos, morfológicos, evolutivos e em atividades de ensino, além de constituírem um banco de dados digital acessível a pesquisadores de diferentes instituições.
Segundo o Prof. Matheus Rotundo, a aprovação representa muito mais do que a obtenção de recursos financeiros: “Este auxílio representa o reconhecimento de um trabalho construído ao longo de muitos anos. O AZUSC cresceu graças ao empenho de estudantes, pesquisadores, técnicos e pescadores que acreditam na importância das coleções biológicas como patrimônio científico. Mais do que modernizar uma infraestrutura, estamos criando condições para ampliar significativamente a produção de conhecimento sobre a biodiversidade brasileira nas próximas décadas.”
O projeto também fortalecerá a colaboração científica estabelecida ao longo dos anos com pesquisadores de diferentes instituições internacionais e brasileiras, incluindo universidades da região, como a UNESP e a UNIFESP, além de ampliar a inserção nacional da Unisanta em importantes redes nacionais de pesquisa.
O Prof. Matheus Rotundo integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biodiversidade e Uso Sustentável de Peixes Neotropicais (INCT-Peixes), uma iniciativa que reúne pesquisadores e instituições de diferentes regiões do país para desenvolver estudos voltados ao conhecimento, conservação e uso sustentável da ictiofauna brasileira. Assim, ao fortalecer a infraestrutura do AZUSC, o projeto amplia a capacidade da Unisanta de contribuir com essa rede colaborativa, disponibilizando dados, exemplares e imagens científicas que poderão subsidiar pesquisas em diferentes níveis e áreas do conhecimento.
A iniciativa também representa um importante investimento na formação de recursos humanos. Ao longo dos anos de sua execução, estudantes de graduação e pós-graduação participarão diretamente das atividades de curadoria, documentação científica, digitalização de acervos, gestão de bancos de dados, identificação taxonômica, produção de imagens científicas e desenvolvimento de pesquisas.
Além da equipe diretamente vinculada ao projeto, o AZUSC continuará recebendo pesquisadores visitantes e mantendo colaborações com diferentes instituições brasileiras e internacionais, como destaca Bruna Batista, analista ambiental do AZUSC: “Os equipamentos serão instalados na Unisanta, mas os benefícios serão compartilhados com toda a comunidade científica. Nosso objetivo é disponibilizar a infraestrutura para a colaboração, fortalecendo redes de pesquisa, formando novos especialistas e contribuindo para que o conhecimento produzido aqui possa apoiar a conservação da biodiversidade brasileira, assim como ampliar parcerias com pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento.”
Um novo patamar para a pesquisa
O projeto aprovado pela FAPESP permitirá a ampliação e o aperfeiçoamento do fluxo curatorial da coleção ictiológica do AZUSC. Esse conjunto de procedimentos garante a preservação do patrimônio biológico brasileiro, assegurando a rastreabilidade, qualidade e disponibilização das informações associadas a cada exemplar incorporado ao acervo.
Com a implantação da nova infraestrutura, o fluxo curatorial passará a integrar, de forma sistematizada, todas as etapas de documentação científica, incluindo a obtenção e sistematização dos dados de captura, identificação taxonômica, coleta de amostras para estudos genéticos, preservação, catalogação, documentação fotográfica padronizada, obtenção de imagens osteológicas de alta resolução e disponibilização integrada dessas informações em ambiente digital.
A implantação de um sistema de imagens digitais de alta definição permitirá potencializar a utilização dos dados da coleção, favorecendo a pesquisa científica mundial. Segundo o Prof. Matheus Rotundo, essa infraestrutura representa uma mudança na forma como as coleções biológicas poderão ser utilizadas: “Tradicionalmente, muitos estudos anatômicos exigiam procedimentos que restringiam o uso futuro do exemplar. Com essa tecnologia, conseguiremos acessar informações preservando completamente o material biológico, permitindo que o mesmo exemplar continue disponível para inúmeras pesquisas nas próximas décadas.”
Outro importante legado do projeto será a completa modernização do sistema de gerenciamento da coleção de peixes. Além da informatização dos registros curatoriais, será desenvolvida uma plataforma digital que reunirá todas as informações obtidas, fortalecendo a integração do AZUSC com redes nacionais e internacionais de biodiversidade.
Para a Dra. Amanda Carminatto, integrante do projeto, a digitalização e a disponibilização de dados representam um passo fundamental para ampliar o alcance científico das coleções biológicas: “As coleções biológicas deixaram de ser apenas espaços físicos de preservação; hoje elas são plataformas de informação científica. Quanto maior a qualidade e a disponibilidade desses dados, maior será sua contribuição para a pesquisa, para a conservação da biodiversidade e para a formação de novos pesquisadores.”
AZUSC: patrimônio científico da UNISANTA
Ao longo de seus 23 anos, o Acervo Zoológico da Universidade Santa Cecília (AZUSC) consolidou-se como um centro de referência para a preservação de material biológico, reunindo coleções zoológicas que subsidiam atividades de pesquisa, ensino, extensão universitária e consultorias técnico-científicas desenvolvidas pela instituição.
Dentre as coleções que integram o acervo, destaca-se a “Coleção Científica Regional de Peixes da Costa da Mata Atlântica”, única coleção ictiológica científica da Baixada Santista. Iniciada em 1998, tornou-se uma importante infraestrutura para estudos em taxonomia, sistemática, anatomia comparada, bioecologia, biogeografia, evolução e conservação da ictiofauna brasileira, apoiando pesquisas desenvolvidas por estudantes, docentes e pesquisadores de diversas instituições nacionais e internacionais.
Além de sua importância científica, o AZUSC também desempenha papel estratégico na formação acadêmica. Parte dos exemplares é utilizada em aulas práticas, cursos de difusão cultural, projetos de iniciação científica, trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado, teses de doutorado, pesquisas de pós-doutorado e relatórios técnico-científicos, aproximando os alunos da realidade da ciência e do mercado de trabalho.
Segundo o Prof. Rotundo, esse aspecto representa uma das maiores contribuições do setor: “Uma coleção biológica é muito mais do que um conjunto de exemplares preservados. Ela registra a biodiversidade ao longo do tempo, documenta espécies, populações e ambientes, permitindo responder perguntas que muitas vezes sequer imaginamos hoje. Investir em coleções significa investir na memória biológica do país e na formação de futuras gerações de pesquisadores.”
Ciência construída em parceria com a sociedade
Grande parte do crescimento das coleções do AZUSC está diretamente relacionada às atividades desenvolvidas pelo “Projeto Pró-Pesca: pescando o conhecimento”. Originalmente iniciado no ano 2000, o projeto visava a integração de pescadores (profissionais e amadores) e pesquisadores para a obtenção de informações e exemplares de peixes estuarinos e marinhos do estado de São Paulo.
Ao longo de seu desenvolvimento, a área de abrangência foi expandida e hoje contempla toda a costa brasileira, assim como espécies dulcícolas (de água doce). Por meio dessa integração, dúvidas e questionamentos dos pescadores se tornaram objetivos de estudo para os pesquisadores, assim como as necessidades dos cientistas passaram a ser motivo de atenção dos pescadores.
Na última década, este projeto de ciência cidadã, também coordenado pelo Prof. Matheus Rotundo, passou a desenvolver ações de alfabetização e divulgação científica. Essas atividades estimulam tanto a participação de pescadores profissionais e esportivos quanto de estudantes e da sociedade interessada. Outra importante iniciativa foi a integração com o “Projeto Etnopesca” que busca compreender e documentar o conhecimento ecológico e pesqueiro ao longo de gerações, sendo este coordenado pela Profa. Milena Ramires do Laboratório de Ecologia Humana da Unisanta.
A parceria entre os projetos tem contribuído para pesquisas sobre biodiversidade, ecologia, manejo pesqueiro e conservação, demonstrando que o diálogo entre ciência e conhecimento tradicional constitui uma importante ferramenta para compreender e proteger os ecossistemas aquáticos, como destaca a Profa. Ramires: “A produção do conhecimento científico não acontece isoladamente dentro dos laboratórios. Ela também nasce da interação com pescadores, estudantes, gestores ambientais e toda a sociedade. Essa aproximação amplia nossa capacidade de compreender a biodiversidade e fortalece o papel social da Universidade.”
