Desde 2024, cerca de 106 mulheres foram atendidas pelo projeto realizado por docente e estudantes da Unisanta.
Estima-se que 29 milhões de brasileiras já sofreram algum episódio de violência doméstica ou familiar, conforme apontam os dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher do DataSenado em conjunto com o Observatório da Mulher contra a Violência (2026). É diante desse cenário que o Grupo Delas, projeto de escuta realizado pelo curso de Psicologia da Universidade Santa Cecília (Unisanta), tem feito a diferença na vida de dezenas de mulheres.
Gratuito e promovido para o público feminino a partir dos 18 anos, a iniciativa começou a ser desenvolvida em 2024 para suprir uma carência urgente na Baixada Santista. Desde então, o impacto gerado pode ser medido pela intensidade de cada encontro. Como aponta a coordenadora do projeto, Prof.ª Denise Alexandre Marques:
“Já tivemos a oportunidade de acolher mais de 106 mulheres. A frequência e a assiduidade das participantes variam de acordo com a realidade e a disponibilidade de cada uma. Algumas participam de forma mais contínua, enquanto outras frequentam em determinados períodos ou de acordo com as demandas que estão vivenciando”, esclarece.
A essência do Grupo Delas é oferecer um ambiente seguro para que o público feminino possa compartilhar experiências, reconhecer-se nas vivências de outras mulheres e fortalecer sua identidade e autonomia.
Essa atmosfera atrai participantes de diversas realidades e também mobiliza os futuros psicólogos. Para a estudante Geovana Rodrigues, a decisão de integrar o projeto nasceu da urgência de transformar o discurso em prática social efetiva.
“Acredito que justamente por fazermos parte dessa geração com os temas que englobam o feminino cada vez mais presentes, passamos a enxergar ainda mais a necessidade de falar sobre escuta e acolhimento e proporcionar lugares que elas possam ocupar sem julgamentos”, aponta.
Ela ainda explica: “A escolha do Grupo Delas vem do princípio de não se limitar apenas ao teórico, mas também de criar esse espaço para as mulheres que precisam dele. Como estagiários, temos a chance de ver a teoria se materializando e nos tornando capazes de acolher essas mulheres da maneira necessária que é através de uma escuta qualificada e sem buscar respostas prontas.”
Além de Geovana, fazem parte deste novo ciclo de estágio os alunos Camilly Fonseca, Cristian Malaquias, Leontina Barbosa, Nathalia Romão e Patricia Donato.
Os novos contornos da escuta
Conforme o projeto ganha maturidade, o perfil das demandas evolui, refletindo crises estruturais enfrentadas pela mulher contemporânea. Denise revela como o cenário se transformou:
“Infelizmente, percebemos um aumento muito grande das demandas que envolvem o feminino. Não estamos falando apenas de violência: as mulheres estão chegando com questões muito diversas, como sobrecarga, luto, maternidade, desafios na carreira, relacionamentos e conflitos de identidade.”
Entre os pontos de maior vulnerabilidade, a coordenação acende o alerta para a invisibilidade da violência psicológica. Muitas vezes naturalizada pelas próprias vítimas e enraizada em dinâmicas sociais, ela opera de forma sutil, mas devastadora.
“Hoje, uma das questões que mais nos preocupa é a dificuldade que muitas mulheres têm de reconhecer a violência psicológica. Muitas situações acabam sendo naturalizadas e, por isso, nem sempre são identificadas como violência. Mas precisamos falar sobre isso, porque pode chegar ao seu extremo, que é o feminicídio. Então, ter um espaço de escuta e fortalecimento é também uma forma de prevenção e proteção”, explica.
Metodologia, expressão e o vínculo humano
Para facilitar o diálogo sobre temas tão dolorosos, o Grupo Delas emprega uma abordagem sensível, pautada no respeito, na ética e no sigilo absoluto. O projeto utiliza recursos complementares de arteterapia e atividades expressivas, como poesias, ikebanas (arranjos florais), músicas, fotomontagens, desenhos e artesanatos que abrem canais alternativos para sentimentos que as palavras não conseguem traduzir.
Entre as dinâmicas de maior sucesso está a produção artesanal de pulseiras, que gera conexão imediata. Através do fazer manual, o grupo resgata a criatividade e favorece a elaboração das vivências traumáticas de maneira leve e coletiva.
Para os estudantes de Psicologia, a vivência exige sensibilidade e maturidade emocional. Geovana aponta que, embora a teoria seja indispensável para dar base à atuação, lidar com o ser humano vai além dos livros. “Cada pessoa é única e nem sempre se encaixam perfeitamente na teoria. É aí que está a diferença. A teoria qualifica e sustenta, mas há algo das relações humanas que só se pode sentir”, ressalta.
O primeiro atendimento em grupo marcou a trajetória da nova equipe de estagiários. Geovana compartilha a carga emocional e o alívio de contar com uma rede de apoio estruturada entre os próprios colegas. Segundo ela, apesar de ser a experiência inicial, a equipe conseguiu se apoiar graças ao preparo qualificado e técnico recebido nas supervisões.
“Tivemos a sorte de criar um vínculo entre nós que aparece tanto nas supervisões quanto fora delas e pudemos nos tornar um espaço de sustentação uns para os outros, seja nas rodas de conversa, nas percepções ou nos sentimentos que surgem sobre. Isso se torna um grande auxílio para que ninguém carregue sozinho uma carga emocional que pode surgir durante nossos encontros”, diz.
O legado do Grupo Delas
Ao longo do tempo, o que começou como uma iniciativa inovadora transformou-se em tradição na instituição e na região. Sobre essa consolidação, Denise elucida que o projeto se tornou um importante espaço de proteção e pertencimento para o público feminino.
“Quando elas compartilham suas experiências e percebem que outras mulheres também enfrentam situações semelhantes, isso ajuda a romper com a sensação de isolamento. É um espaço que contribui para o fortalecimento da autoestima, da identidade e, principalmente, da autonomia dessas mulheres”, finaliza.
Serviço
Grupo Delas (Projeto de escuta, acolhimento e fortalecimento feminino)
Público-alvo: Exclusivamente mulheres a partir dos 18 anos (aberto à comunidade, sem restrição de classe social; não é necessária inscrição prévia, basta comparecer e se identificar na portaria).
Quando: Terças-feiras, das 15h30 às 17h30.
Onde: Dependências da Unisanta (Entrada pela Rua Osvaldo Cruz, n.º 277, Boqueirão, Santos – SP).
Rede social oficial: @grupodelas.escutafeminina
