InovFabLab cria lâminas táteis para aluna com deficiência visual

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Uma iniciativa inovadora está transformando a experiência de ensino na Universidade Santa Cecília (Unisanta). A partir de uma necessidade real em sala de aula, surgiu um projeto que une tecnologia, empatia e educação inclusiva: a criação de lâminas táteis para auxiliar uma aluna com deficiência visual total nas aulas do curso de Nutrição.

A ideia partiu da professora Débora Rocco, ao perceber que o formato tradicional da disciplina (fortemente baseado no uso do microscópio) limitava significativamente a participação da estudante. “Como a disciplina de Microscopia utiliza bastante a visão e ela é deficiente visual totalmente, a experiência dela estava sendo reduzida. E o papel do professor é justamente o contrário, é ampliar a visão daquela disciplina e do curso, ampliar, não reduzir”, explica.

Diante desse desafio, a docente decidiu buscar alternativas que possibilitassem à aluna vivenciar o conteúdo de forma plena. A solução veio por meio da adaptação das lâminas histológicas para o tato, com o apoio do Laboratório de Inovação da Universidade Santa Cecília (InovFabLab Unisanta). “O que me motivou foi fazer com que ela pudesse ampliar a experiência do que todos viam para o sentido que ela possui plenamente, que é o tato”, destaca.

O projeto envolveu a criação de duas lâminas principais: uma representando o útero, com suas três camadas, e outra, uma célula, permitindo a identificação de organelas e do núcleo. O grande desafio foi transformar imagens bidimensionais em estruturas tridimensionais que pudessem ser compreendidas pelo toque.

“A primeira dificuldade foi justamente fazer uma diferença que ela sentisse no tato. Por exemplo, na lâmina de útero, precisávamos representar três camadas distintas. Nosso desafio foi criar texturas e relevos diferentes para que ela conseguisse identificar cada uma e entender o posicionamento delas”, explica a professora.
A proposta não apenas beneficiou a aluna, como também trouxe reflexões sobre o próprio processo de ensino. “Muitas vezes, os alunos também têm dificuldade de identificar essas estruturas no microscópio. É um novo processo de aprendizado”, completa.

O desenvolvimento das lâminas foi realizado pelo especialista em modelagem 3D e projetos de realidade aumentada do InovFabLab, Lucas Faria da Silva, utilizando tecnologias de fabricação digital. O processo começou com a modelagem em software 3D Blender, com base em estudos de mapas de deslocamento para extrusão de malhas. Em seguida, foram aplicadas técnicas de litofania, que permitem criar relevos a partir de variações de espessura para aprimorar os detalhes das peças.

Após a finalização dos modelos, as lâminas foram produzidas na impressora 3D X1 Carbon do laboratório, materializando o projeto em peças físicas acessíveis ao toque.

Para o professor Me. Sergio Schina de Andrade, gerente do InovFabLab, o projeto representa a essência do laboratório. “A essência do FabLab é democratizar a tecnologia. Projetos como esse mostram que a inovação não deve ser um fim em si mesma, mas uma ferramenta para resolver problemas reais da sociedade”, afirma.

Ele destaca ainda o impacto social da iniciativa: “Quando usamos a fabricação digital para criar soluções de acessibilidade, o laboratório deixa de ser apenas um espaço de prototipagem e se torna um agente de transformação social”.

Gabryelle Pereira Silva, aluna de Nutrição da Unisanta e beneficiada pela iniciativa, considerou a experiência transformadora. “Foi uma experiência bem diferente, muito legal. Eu gostei bastante e fiquei muito grata, porque é uma maneira de entender melhor as estruturas observadas no microscópio, que eu não consigo enxergar”, relata.

Ela destaca a importância das lâminas no processo de aprendizagem: “Sem elas, eu ficaria bem perdida, elas ajudam bastante. Representam as partes principais, então eu consigo entender onde estão as coisas, como o núcleo e as organelas”.

Segundo a professora Débora, os resultados foram extremamente positivos. “Ela conseguiu reconhecer estruturas, diferenciar tecidos, entender conceitos complexos através do tato. E mais do que isso, ela percebeu que pode estudar dentro da faculdade e que tem recursos para isso. Ela se sentiu totalmente inserida”.

A estudante também teve a oportunidade de conhecer o InovFabLab, onde pôde interagir com os equipamentos e contribuir com sugestões. “Ela se sentiu abraçada demais, e isso também faz parte do aprendizado”, ressalta a docente.

Educação que transforma

A iniciativa reforça a importância de uma educação inclusiva e em constante evolução. “A educação é muito plural. A gente não pode achar que o que estamos fazendo hoje é suficiente. Precisamos nos expandir tanto na tecnologia quanto na pedagogia”. Ela já planeja novas ações para os próximos anos, visando adaptar outras disciplinas e ampliar ainda mais o acesso de alunos com deficiência. “Quando o professor amplia o mundo dos alunos, ele também amplia o seu. Nosso repertório como docente é ilimitado”.

Para o professor Sergio, o projeto simboliza um caminho que pode ser ampliado. “Isso é uma prova de que a inclusão se faz com empatia aliada à técnica. É um exemplo que pode inspirar outros setores da universidade. Quanto mais iniciativas como essa, mais oportunidades teremos de transformar vidas”.

Conheça alguns projetos feitos no InovFabLab da Unisanta.